Eu queria ter tido tempo pra te dizer que queria ser digna do teu amor. Que o caminho que eu escolhi, não foi por egoísmo meu, em momento algum. Não fiz por mim, fiz por você, única e exclusivamente por você. Pra mim, teria sido muito mais vantajoso ter você comigo. Mas não quis assim, porque não achei justo. Sentia-me sufocada toda vez que me via na situação de estar permitindo que aquilo estivesse acontecendo, sem que eu pudesse retribuir tudo o que fez por mim, nesse tempo em que esteve comigo, presente de corpo, ou de alma, antes mesmo de saber que eu era real e que estava convicta de minhas verdades e neuroses.
Mas você esteve lá, quando pensei que estivesse totalmente sozinha. E ao contrário do que você pensava, não fui eu que te salvei... Foi você mesmo quem se salvou.
Eu nunca quis tirar você da minha vida. Eu só queria me tirar do teu coração, enquanto você não pudesse ocupar o meu. Eu não me importaria em ficar sem teus carinhos, sem teus sorrisos, sem teu suporte, contanto que você não esperasse nada de mim.
É tudo o que passa pela minha mente nessas madrugadas em que acordo soluçando, com o rosto molhado de lágrimas, abraçando os joelhos com todas essas palavras trancadas na minha garganta que se fecha, e essa agonia que mantenho presa todos os dias atrás de incontáveis sorrisos, máscaras de estou-de-bem-com-a-vida e nada-disso-nunca-me-afetou. Não faço por mim, faço por você, pra que quem esteja ao meu redor não perceba tudo o essa história significou, mesmo que a mim seja atribuído um coração de pedra, frio e narcisista, não interessa. É leve pra mim, quando comparado ao furação que se passa aqui dentro, a todo momento, avassalador. E eu jamais me importei.
Eu nunca terei a chance de te dizer tudo isso, mas eu acreditei que você sempre soubesse.
Também não tive naquele dia em que te encontrei com olhos vermelhos, o queixo tremendo, a mochila no banco e a foto na mão, entulhado de palavras minhas que nem sei se quer se você ouviu. Naquele dia eu descobri o tão forte, e o tão fraca que uma pessoa consegue ser num mesmo momento, e o quão fundo podemos explorar nossas almas, sem perder nossa luz interior. E me senti anestesiada e diligente enquanto palavras suaves transformavam-se em gritos de dor e de medo, ao mesmo instante em que o coração passava a perceber com clareza o que a razão jamais aceitaria.
Você tinha se decidido a partir.
Eu só tenho a te dizer, obrigada. Por ter me dado tudo, sem nem ao menos eu ter te oferecido o bastante. De onde está, tenha paz e luz, e o bem querer de todos que ficaram.
