Eu me lembro das minhas primeiras decepções. Nunca senti tanta raiva quanto no dia em que descobri que estava indo para o pré-escolar porque tinha que ir, e não porque eu queria ir. Demorou uns meses até minha mãe conseguir me convencer (ou me comprar) de que aquilo era obrigatório até eu descobrir por mim mesma, o quanto aquilo era bom. Mas isso não foi o pior. A primeira vez que chorei por causa de amigo que nunca foi amigo me machucou, foi diferente. Aquilo não me deu raiva, nem ódio. Foi uma das coisas que não consegui, e ainda não consigo entender. Pessoas hipócritas me dão nojo, não as que vivem de mentira e não fazem questão de escondê-las, mas as que mentem e fogem da verdade, as que têm medo de enfrentar, de serem o que são, não confiam em si. Mudanças são necessárias, mas esse conceito que construi com a primeira decepção não muda, nem vai mudar. Mas triste mesmo foi quando me contaram, depois de anos ouvindo aquele cd, cantando em inglês (sim, com 7 anos) e apaixonada pelo baterista, que eu não poderia ir a um show do Queen ouvir Freddie Mercury cara-a-cara. Não falei com ninguém aquele dia. Qual é, que ele era gay eu já sabia, agora que ele já estava morto foi pior do que saber que eu não podia voar. Tudo bem, o show deixa pra lá. O que eu queria mesmo era virar menino, mas aí eu não poderia usar salto. Droga, tudo por um salto, mesmo que fosse demorar mais uns anos. Eu só queria poder fazer xixi de pé, mas nada. Eu tinha um plano melhor, pegar minha bicicleta e virar o mundo, mas não podia, tinha a escola, minha mãe ia ficar com saudades e não, comida não era de graça. Comecei a pedalar um pouco por dia, cada vez mais longe, mas era um saco fazer o caminho de volta. Só com 14 anos é que consegui ir até a outra cidade, e me senti tão livre que fui mais três vezes. Ainda quero ir mais longe. Gostar de alguém, de verdade, simples. Nããããão! É bom, dói, passa. Deixa forte. A decepção não foi com o sentimento, foi com ele. Não me fez nada de mal, mas tenho dó. Mudanças, as minhas melhores que as dele. Decepção que já era certa eu tinha é com o tempo, com a vida, que me afastaria dos amigos, aqueles que conheci no pré, onde eu não queria ficar, e que me trouxeram as mais imensuráveis lembranças boas, do coração, e que me fazem sorrir pro nada até hoje. A que tive com os hippies, que perderam as forças, os seguidores excêntricos, a individualidade em grupos fiéis, as ideias distintas que poderiam mudar o mundo, ao mesmo tempo em que coisas do tipo emo, onde todos querem ser diferentes e acabam sendo todos ironicamente iguais, tem conquistado cada vez mais gente. Troquei de escola, decepção, de novo. Gente fútil, mesquinha e acéfala existe em maior número do que imaginava. Mas consegui, me superei a cada uma delas, ou pelo menos, consegui sobreviver e não me transformei naquilo. É do que precisava pra ter certeza, hoje, que influências a gente só abraça quando quer. Que personalidade é algo da gente, não precisa ser exposta, ser anunciada, ser seguida. É algo egoísta. Pior foi quando abri os olhos e vi o quanto eu era inútil, e que o mundo não precisava de mim. Ele consegue se decompor sozinho, se levantar sozinho. Mas eu sabia que tinha nascido pra algo, eu sei que nasci pra algo. Essa certeza é que me traz coragem, fé, força, desejo, vontade. Enquanto eu não sei do que se trata, eu vou tentando. Mudando. Crescendo. Apostando. Perdi as contas de quantas vezes me senti poderosa e indestrutível, capaz de fazer algo grande. E é bom. E é assim que me sinto, toda vez que uma decepção se torna desprezível e um degrau diante de mim. Se uso ele pra subir ou pra descer, é só mais uma escolha. Pequena, se comparada a vida.