Ela acorda cedo, mal tem tempo pra comer e a tecla de soneca do celular é pressionada umas 7 vezes todos os dias antes de saltar da cama que é tão segura, confortável e viciante, ainda olha pra trás antes de vestir a mesma roupa que centenas de pessoas naquela cidadezinha também usam. Sai correndo pra não precisar pedalar o tempo e o percurso que está reservado pra mais tarde. No ónibus, ou o gamba móvel, como chama carinhosamente, é o primeiro espaço onde ela passa uns 10 minutos com o primeiro aglomerado de gente fedida do dia. Vê a mesma amiga, dos mesmos dias dos últimos 8 anos, com qual não se cansa de falar e ficar em silêncio, mas esses nunca foram os mesmos. Ela só acorda direito quando aquela luz forte do sol começa a bater no rosto, quase cegando. Os primeiros raios, que outrora são tão agradáveis, como nos filmes, lhe causam tanta irritação que lhe surge até uma pequena "pontada" de mau humor... mas não moçada, isso não. Sorriso na cara, as coisas não vão pra frente se começar com frescuras. Ela chega num lugar com um muro alto, muitos pestes, muita gente fedida (acho que já falei né, mas é impossível conter a suvaqueira), muita gente feia, muita gente chata, muita gente burra, e muita, mas muita gente incrível. Tem merenda também, sopa, feijão, risoto, macarrão, polenta (argh, polenta não) de deixar a mãe pra trás. Às vezes ela aprende também.
Aí chega a hora de enfrentar o gamba móvel de novo, e de almoçar. Ah o almoço, ela tem vontade de tomar café. A merenda mal acabou... Ela veste outra roupa. Dessa vez uma só dela. Dependendo do dia, ela até se preocupa com cores, e ela gosta de azul. Ela adora o azul. Mas tem um negócio chamado relógio, ele geralmente é mais rápido que ela, é traiçoeiro o forgado, mal dá tempo pra ela falar com a mãe e se explicar porque não almoçou direito, foi a merenda mãããe, diz ela. Os raio do sol estão mais fortes, e o trajeto é rápido, as pessoas na rua mal veem ela passar. Mal sabem eles que essa hora do dia é sagrada pra ela. Ela tá sozinha com seus pensamentos, e pensa demais!
No susto, ela chega. Fala a tarde toda, mas não fala com ninguém. E não se importa, nenhum pouco. Ela tem objetivos mais importantes do que parecer simpática. Tem valores mais dignos de alguma estima, tanto por ela, quanto por outros. Ela não é uma caixa aberta onde todos remexem, olham, comentam e divulgam. Falam sobre, sim, ela sabe. Mas, como já divaguei, ela tem objetivos mais importantes do que se distrair com futilidades. E é no susto também que termina. Hora de voltar. Dessa vez, devagar... beeeeeem devagar. Sem sol, mas com estrelas, e na sorte, uma lua. Essa luz é leve, tranquila e misteriosa. Ela deixa se envolver, se levar por uma calma que abraça, uma liberdade que tonteia, sozinha de novo, e como é bom. Silêncio, verdades. Olhe só pra ela, ela têm o que se chama de plenitude quando sorri pro nada desse jeito.
Banho. Ela só lamenta por ainda não ser verão, a água seria cruel se fosse fria nesse inverno. Um banho frio, pra despertar novas energias, e pra livrar o corpo das más. Dessa vez, a refeição tem nexo. É jantar sim, e com um bando de pessoas que tem o mesmo sangue que ela. Com quem pode falar, rir, brigar, xingar ou calar-se que a diferença na manhã seguinte seria a mesma. É família, parte dela também. Ela vai ao encontro daquela cama da manhã, aquele refúgio gostoso. Ouve músicas, os olhos brilham. Ah o som daquelas músicas, a magia que elas tem. O gostinho bom que causam, que lhe tocam, que lhe encantam, que lhe fazem flutuar... O livro da cabeceira que ela abre, que lê algumas páginas e que o sono, que vem chegando devagar e lhe prega uma surpresa, não permite que ela se lembre na noite seguinte onde parou, nem usa mais marca páginas.
Logo logo ouve um "here's a thought for every man who tries to understand..." e tem vontade de arremessar o celular na parede segundos antes de pressionar a tecla soneca.